L&PM Pocket Manga, Wishful Thinking e Decepção

Como quase todo mundo deve estar sabendo, a conhecida coleção L&PM Pocket – referência em livros de bolso no Brasil – inicia este mês uma seção de manga a serem publicados pelo selo no Brasil; a começar por Solanin e Bouken Shounen [Aventuras de Menino], mangas que são escolha certa para atingir o público de livraria [e bancas de elite] no qual a editora trabalha.

O diferencial da L&PM para outras editoras de manga, inclusas as grandes, é fazer parte de uma editora de livros com escala maior e que não precisa construir todo um novo caminho do zero; da impressão à distribuição, os mangas são parte de um processo estável e lucrativo. Assim, é factível um preço de quinze reais para uma edição com papel de qualidade. Claro que tudo soa profissional – até o lançamento por canais oficiais na internet – e temos presente tudo que deveria ser o padrão, mas o hype dos formadores de opinião no Twitter e outros anda absurdo.

Principalmente para algo ainda nem lançado [apesar da distribuição ter começado, mesmo em um estágio incipiente aonde as meninas do Moon Stitch conseguiram ter acesso ao material, já devidamente resenhado no blog] as expectativas já estouraram o teto e algo a mais; tanto que mal sabemos como serão alguns detalhes – particularmente a distribuição em bancas [provavelmente terá exatamente a mesma distribuição, nos mesmos lugares do restante da coleção – mas os sonhos, os desejos e o pensamento positivo mais precisamente expressado pela palavra inglesa wishful thinking já aparecem, inclusive para algo provavelmente fora das intenções da editora [até aqui não saiu qualquer entrevista com algum responsável por esta] que são mangas com mais de dez volumes. O que costuma ser uma decisão difícil para os players tradicionais faz ainda menos sentido neste caso, ainda mais pelo posicionamento de mercado ser diferente.

Além disso, ocorre outro possível wishful thinking que pode ser decisivo na história da novata é o fato de sempre afirmamos que há público para mangas focados em jovens adultos, principalmente aqueles que se apoiam mais em temas e abordagem adultas em vez de sempre efetiva combinação de sexo e violência [nas palavras da editora, estudantes universitários e jovens profissionais que já tem o hábito de ler quadrinhos e buscam leituras mais sofisticadas¹]. Mas com tantos fracassos na área no Brasil [como não lembrar de Monster?], será mesmo que o público que compra livros ou outros quadrinhos [Garfield, Hagar] da editora irá se aventurar nestes mangas? E o público que reclama muito no Twitter e leem manga por meios não-oficiais realmente sairão de suas casas para comprá-los [afinal, sempre há uma desculpa – e aqui o tamanho menor do livro deve ser levantado por alguns assim que os exemplares começarem a chegar pelo Brasil]? Ou realmente teremos que nos apoiar no leitor usual de manga que as editoras atualmente agradam lançando Sora no Otoshimono ou HighSchool of the Dead?

Pode soar cruel e negativo, mas além da óbvia possibilidade de um retubante sucesso há também o risco de um eventual fracasso a roda – e caso isso realmente aconteça, a decepção será grande e culpados serão procurados. E o mesmo exagero visto acima desta vez se voltará contra a editora de Porto Alegre, afinal há público para mangas focados em jovens adultos no Brasil, eles que foram burros! Não sabemos o quão e há quanto tempo este projeto vem sendo [se] meticulosamente planejado, mas parece termos diversas decisões conscientes feitas desde antes do anúncio do lançamento destes mangas do algo distante Fevereiro/2011 – o que não impede de mesmo esse modelo de riscos calculados de eventualmente fracassar, como sempre, por uma soma de motivos mais complicada que muitos tentam parecer.

Claro que nada impede da editora tomar decisões desastradas daqui pra frente, mas tanto no sucesso ou no fracasso inicial devemos saber separar os sonhos de um mercado brasileiro de manga tão profílico quanto o em decadência norte-americano da realidade em que podemos esperar pelo menos mais alguns títulos pela L&PM Pocket Manga que reúnam as características presentes em Solanin e Bouken Shounen [talvez expandindo o rol de editoras para algo além da Shogakukan, algo que não deve esperado a curto prazo]: histórias curtas e na medida para o público-alvo mencionado acima – afinal, antes de serem manga [e terem orelha de gatinho], são histórias em quadrinho.

1 – http://bit.ly/rWTwJf – Apresentação, L&PM Pocket Manga, Página 16 de 39

6 Comentários

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6 Respostas para “L&PM Pocket Manga, Wishful Thinking e Decepção

  1. Só um detalhe, Monster não deu certo na época, por diversos fatores. Além de ser uma leitura direcionada a um publico mais maduro e portanto, nada comercial, também teve tiragens enormes (parte da tragédia da Conrad realmente foi por culpa dela mesma) e com mal planejamento, o publico naquela época era completamente diferente. Tão diferente que One Piece não era visto como essa coca-cola toda. Hoje o mercado está diferente e com novos consumidores. Alie isso a uma boa estrutura e bom planejamento. Porque, nem mesmo um HOTD e Sora no Oto iria dar lucro se a Panini desse a louca e fizesse tiragens irreais e não soubesse passar seu produto adiante, coisa que a Conrad parece não saber fazer até hoje, dando descontos enormes 1 mês depois do lançamento. Assim, é claro que o pessoal iria parar de comprar nas bancas pra poder adquirir nas baciadas dos eventos.

  2. Suna

    Eu vejo essa expectativa com a chegada dos mangás da L&PM como algo muito positivo, tanto quanto as reclamações recentes pelas burradas de JBC e Panini. São mais leitores ativos, se comunicando, incentivando e cobrando pelo que pagam, coisa que há pouco tempo eu não sei se era um hábito. Digamos que os lançamentos da L&PM, coincidindo com o anúncio de aumento de preços e impressões porcas de 2 mangás das editoras mais populares, contribuíram para criar esse frenesi. Só acho exagero a aprovação cega que muitos estão demonstrando sem fazer uma avaliação pessoal, só embarcando nas opiniões de outros. Eu estou feliz com a novidade, desejo sorte e paciência à editora, mas não vou dizer nada sem ver um dos títulos lançados, ou os futuros, e ver como a L&PM levará o trabalho adiante. Mesma coisa com os novels de Moribito, que sairão pela Martins Fontes (acho), segundo o Jbox. É outra boa notícia, mas só vou tecer elogios quando/se comprar o meu (Quando o preço estipulado cair bastante) e se sentir que o gasto foi válido.

    Sobre o investimento em títulos para um público mais adulto: Graças à Deus! A otaku senil aqui agradece a variedade! Mesmo gostando de alguns mais tops, sair da seção Naruto-Bleach-One Piece é bom de vez em quando.

  3. O teu post tá muito bom, afinal de contas, tempos que considerar os contras de tudo o que surge, não dá para viver o sonho de que tudo será perfeito. Entretanto, eu acredito sim que a editora vai ser bem sucedida na sua proposta justamente por atuar dentro das livrarias, atingindo outros tipos de público, diferentes das bancas, mas é óbvio que ela não vai apresentar um esquema de trabalho como o das outras editoras, como por exemplo lançar séries com muitos volumes, ter uma periodicidade padrão, etc., porque afinal de contas eles estão tratando os mangás como livros, não como revistas.
    Temos que considerar também que hoje o mercado pede por estilos de histórias diferentes.
    Quanto à apresentação da publicação, se o povo compra um mangá com qualidade muito mais baixa, papel jornal quase transparente, entre outros, o tamanho pocket não será um empecilho, até por ser mais prático e tal… enfim.
    Mas foi ótimo tu teres levantado essa questão! Temos que confiar desconfiando e nunca colocar a mão no fogo por ninguém…

  4. Eu tenho a visão, ignorante talvez, parecida com a da Beta. Não sei se é impressão minha ou não, mas vejo bastante títulos mais maduros nas bancas, penso que, por exemplo, o primeiro volúme de Naruto (o título que mais vende) aqui no BR foi em 2007, pode não parecer muito, mas uma criança de 13 anos naquela época já tem 18 anos hoje, o pessoal que continuou comprando mangá quer algo mais maduro, tanto que que títulos como Berserk e Gantz (mangás de “transição”) vendem bastante(?)
    Acho que só é necessário oferecer algo ainda um pouco mais maduro para esse pessoal, que eles vão comprar….acho.

    De mais, o que posso falar? Hypo mesmo, gosto de Solanin, nunca imaginei o título tão cedo por aqui.

  5. ” É outra boa notícia, mas só vou tecer elogios quando/se comprar o meu (Quando o preço estipulado cair bastante) e se sentir que o gasto foi válido.””

    É por isso que o mercado brasileiro de mangás e DVDs de animes não vai para frente. Muitas vezes as pessoas esperam para comprar com desconto e prejudicam as editoras (no caso, a Conrad e possivelmente a NewPOP) ou as empresas de DVDs.

  6. Pingback: #paniniday, Advogado do Diabo | Nahel Argama

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