Kaze no Tani no Nausicaa

No começo da década de 1980 Hayao Miyazaki já era um dos grandes nomes da indústria do anime – afinal desde a primeira série de Lupin Sansei, co-dirigida pelo também grande Isao Takahata, até o autoral Mirai Shounen Conan já havia feito seu nome como um competente diretor televisivo; e seu último trabalho até aqui, o bom Lupin Sansei, Cagliostro no Shiro, é um belo e algo maduro retorno ao cinema em um frenético e divertido filme já resenhado neste blog. Porém faltava algo a mais: uma obra em que se pudesse trabalhar verdadeiramente com liberdade [mesmo Conan é baseado em um livro de Alexander Key] para realmente impôr sua marca em um produção feita com muito dinheiro, cuidado e esmero.

Para conseguir o sinal verde para Kaze no Tani no Nausicaa, Hayao Miyazaki acaba tendo que em 1982 começar a produzir o manga da série [publicado parcialmente no Brasil em uma bela versão da editora Conrad] que garantiu o financiamento da Tokuma Shoten, que organizou o filme animado pela desconhecido estúdio Topcraft [cujos membros após o filme constituíram a base do hoje renomado Studio Ghibli] e distribuído pela gigante Toei. Junto com Super Dimensional Fortress Macross: Do You Remember Love?, Nausicaa chega aos cinemas japoneses em 1984 expandindo o tom futurista-apocalíptico e ambientalista de Conan em uma obra com um feeling definitivamente próprio e peculiar – tanto que mesmo em relação a obras posteriores, alguns elementos jamais foram repetidos.

A civilização acaba em fogo, nesta bela abertura com elementos de pinturas pré-históricas.

E desde os créditos iniciais fenomenais em sua aparente simplicidade para contar a história daquele mundo cuja civilização foi destruída mil anos antes do começo da história do filme por gigantes de fogo e que terminam após mostrar a protagonista, a Nausicaa do Vale do Vento que dá título à história descendo após um bonito voo para entrar no ambiente dos Ohms, os insetos que dominam este mundo delicado e árido. A obra tem um estilo de exposição da história [potencializado pela direção] que prima por mostrar facetas do mundo da série enquanto cozinha em banho-maria o enredo.

E assim podemos vislumbrar, do Vale do Vento ao Mar de Detritos, passando por oásis subterrâneos e até mesmo pelos modelos relativamente simples de aeronaves existentes na série, toda a construção de um mundo harmônico em sua escassez e absoluta fragilidade, feito na medida para trazer à tona o tom ambientalista de uma obra aprovada pelo WWF – sim, a mensagem da obra neste quesito é clara e muito bem sacada, especialmente para algo feito em uma época aonde o cowboy do Marlboro ainda podia andar livremente pelos campos americanos.

A bondade da protagonista é testada desde uma mordida de um animal...

Afinal, o ser humano deve cuidar de seu planeta, sob risco de perder as relativamente fáceis condições de sobrevivência presentes atualmente. Óbvio, mas explicado de forma realmente integrada na história [e a experiência de termos uma obra que sabe explorar plenamente o fato de ser audiovisual faz a diferença em tempos nos quais os animes primam por terem verdadeiras torrentes de diálogo]. O que realmente surpreende aqui é Nausicaa mostrar que não é o Planeta Terra que será destruído pela arrogância e ganância humanas, mas a civilização humana que terá que se readaptar a esta nova situação. Mas será mesmo que a humanidade aprendeu sua lição?

Esta é a questão sobre a qual gira o enredo; depois de passarmos longos minutos apreciando Nausicaa e seu Vale do Vento, começamos a ver um pouco do mundo maior e mais complexo que existe fora daquele, aonde a incessante busca por poder, expansão e diferenciação entre tribos ainda levam seres humanos a guerra – mas ao contrário de um Lupin Sansei aqui os personagens – principalmente os que poderiam ser considerados vilões – são bem mais humanos e um pouco mais ricos, o que pode ser facilmente notado na rainha tolmekiana: claro que é ambiciosa e capaz de fazer diversos males em busca de seu objetivo de restaurar um mínimo de civilização àquele mundo, mas o fato de possuir um profundo ressentimento devido também a um drama pessoal torna a personagem tridimensional, humana.

...até o fato de precisar usar uma espada. Pessoas sangram. Pessoas morrem.

Todos os personagens tem traços de personalidade, e até mesmo sobre a icônica heroína pairam algumas dúvidas; afinal, mesmo sendo provocada ela mata diversos inimigos que fizeram mal suficiente para despertar a sua ira – e por isto toda a situação melancólica presente ao longo do filme [nisto, a música-tema da série é matadora, transmitindo este clima com precisão, com diversos momentos de tensão e comiseração por parte desta.

Mesmo assim podemos classificar Nausicaa como exemplo clássico de personagem perfeitinha [mary sue], na qual mesmo seus defeitos são irrelevantes e perdoáveis. A intenção do autor com este grau de pureza da personagem face aos males do mundo é mostrar que ainda há espaço para o amor neste, mas atrás de um sorriso de um otaku costuma haver malícia, e logo Nausicaa se tornou para muitos mais que uma personagem preferida e sim um ideal de esposa – longe da culpa ser do diretor [e roteirista] do filme, mas estas verdadeiras princesas que são [em personalidade] Clarisse, Nausicaa e [veremos em um artigo futuro] Sheeta são exemplos clássicos de ore no yome, de waifu, de personagem – geralmente pura e inocente – que é ideal para casar, sendo a fantasia de muitos otakus no Japão.

Nausicaa e a princesa tolmekiana em face da Natureza.

Lamentável? Sim. Mas há elementos na obra que alimentam estes pensamentos – e Miyazaki, obviamente sabendo disso, acaba sendo influenciado a modificar o padrão de suas heroínas – assim, principalmente após o longo hiato entre Kurenai no Buta [Porco Rosso] e Mononoke-hime temos novas características presentes nas heroínas miyazakianas; mas isto é assunto para outros artigos.

Em um filme que em todos os aspectos é redondo não poderia faltar uma espetacular parte técnica; começando pela trilha sonora, pode ser que os sintetizadores incomodem alguns – mas apesar do Joe Hisashi ainda não ter embarcado na vertente mais clássica aonde produziu o melhor de sua obra, temos músicas que ao menos são muito efeitvas para dar o clima do filme.

Apesar de não ser frenético, Kaze no Tani no Nausicaa também tem ação.

Mas é o detalhe na arte e o capricho – mesmo com orçamento moderado – na animação, mesmo que não impressionem mais como antes [algo como Fate/zero realmente impressiona ao pensarmos que é uma produção para TV] e alguma instabilidade em algumas cenas [dá para perceber alguns momentos de óbvio zoom-in/out, aonde a parte focada aparece com menor resolução e desenhada com linhas mais grossas], temos desde cenários desenhados com esmero até uma caprichada fotografia que realça e marca o ambiente daquele mundo. A animação em si ainda é tradicional, mas em algumas corridas bem-feitas dos personagens já vemos traços do estilo minimalista que seria adotado posteriormente de esperarmos isto de qualquer obra do atual Studio Ghibli.

Lento mas progressivo, ambientalista sem ser pedante, mostrando um futuro pós-apocalíptico sem ter mechas, tendo um feeling clássico sem prender-se nos cânones – ao contrário, criou cânones que infelizmente influenciam obras fracas como Xam’d Last Memories ou Sora no Woto – por tudo isso e muito mais Kaze no Tani no Nausicaa, mesmo que não tão refinado quanto o manga e obras da fase mais madura de Hayao, é mais que simplesmente um anime muito bom, sendo um verdadeiro clássico. Não tem aspectos autobiográficos como Tonari no Totoro, mas o autor consegue passar sua visão de mundo em uma obra que podemos chamar de autoral, um dos motivos pelo qual merece ser visto hoje tão ou mais que em 1984 – afinal, quem atualmente possui ao mesmo tempo a precisão e a personalidade deste Miyazaki? Talvez nem o próprio tenha mais o mojo para isso.

Tudo bem que o mal no filme seja relativo, mas não dá para negar o poder de um canhão, né?

5 Comentários

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5 Respostas para “Kaze no Tani no Nausicaa

  1. Não acho que a Nausicäa seja mary sue por ler o mangá.
    Não sei se você considera isso melhor ou pior, mas ela é a clássica pessoa escolhida para salvar o mundo, simplesmente isso. Ela vai salvar a todos simplesmente porque tem que ser ele e somente ela, mas ainda assim é interessante ver como isso é desenvolvido como sendo algo à mais. Não é que ela foi escolhida ANTES, para depois fazer, É como se ela fosse escolhida DEPOIS de já ter feito muito.
    A Nausicäa é uma pessoa peculiar com ideias excêntricas. Ela trás algo de novo para o mundo, pensamentos e ideias novas que já estavam a muito perdidas. Mais do que boa vontade e bondade ela trás conhecimento, que poderíamos muito bem chamar de ciência. Muito do mal que aflige o mundo em que ela vive é consequência da ignorância pessoas em relação mundo e a natureza ao redor dela. Mais do que serem ignorantes eles estão com os olhos em mentes fechados. Mesmos os sábios não conseguem e se recusam a ver. A Nausicäa tem a mente aberta e consegue perceber e entender o que a humanidade a muito esqueceu e também descobrir coisas novas. É disso que o mundo e principalmente a humanidade precisa para sobreviver.

    Embora toda essa consciência ela não é boba de ter a pretensão de querer salvar a tudo e todos na marra, ela apenas se dedica em fazer o máximo que puder para ajudar e conciliar. Ao lutar, antes de tudo ela tenta preservar a própria vida e consciente do mundo cruel em que vive ela mata quem for necessário para sobreviver. Ela é mais sobrevivente do que salvadora. Apesar de que ela muitas vezes se coloca em perigo quando acredita ser necessário para fazer o que acredita que precisa fazer. Ela não se questiona se o objetivo que quer alcançar é o certo antes, ela age primeiro e se sobreviver pensa depois.

    Enfim, tudo isso para dizer que eu não concordo que ela seja uma mera Mary Sue.

    Bom lembrar que o filme só mostra o começo do mangá.

    http://goo.gl/AO0vy

  2. Lucas Medeiros

    Um texto muito bom Qwert, introduz muito bem a obra de Miyazaki e trata-a com o devido cuidado, apesar disto eu gostaria de fazer algumas considerações.

    Nausicäa justamente é uma das principais personagens a romper com o modelo de yasashii, a esposa perfeita de tradição nipônica, que já vinha desde Zazae-san, Miyazaki ao trazer toda uma serie de conflitos internos e ao colocar a personagem em um papel ativo, rompe com esta tradição. Se destaca de heroínas mais clássicas como Safiri pelo fato de que suas características pró-ativas não são emuladas de personagens masculinos, mas sim inerentes, uma constante do autor.

    É verdade que os padrões mudam e que os otakus apropriaram de uma série de elementos para produzir seu próprio modelo de esposa perfeita, tsurandismos estão ai para provar isso, mas reduzi-la a “pura e inocente” é ignorar toda a evolução do gênero.

    Mimimis à parte, grande texto e continue assim.

  3. E esse continua sendo o meu filme preferido do Estúdio Ghibli (sem dúvida por conta de Nausicaa). Mas, eu não acho que a personagem carregue aquele ideal da mulher perfeita (estamos falando do ideal otaku,certo?). Pelo contrário, ela é até um pouco diferente das outras mocinhas do Vale (claro que no mangá isso é mais marcado).
    Sobre o Hayao não roteirizar como antes,(Ponyo e Arriety já apontavam para isso).segundo o que especulam por aí, o seu filho, Goro Miyazaki, irá sucedê-lo (ainda é cedo pra dizer,mas,acho que o Estúdio ficará bem se ele se aposentar. Fato: tive um ótimo professor que só se aposentou por conta da idade,era um senhor muito inteligente. Então, não ficaria surpresa se, mesmo depois de aposentado, o sr. Miyazaki continuasse dando pitacos em uma ou duas produções).

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