Osamu Tezuka, O Pai do Anime

[caro iniciante, bem-vindo nahel argama, seu porto seguro para animes – leia o artigo mas também veja a página principal, caprichada de outros posts que podem igualmente lhe interessar – qwerty]

Bem-vindos a mais um post que busca homenagear o Pai – ou para alguns até mesmo o Deus – do manga que é Osamu Tezuka. Mas ao contrário de muitos colegas deste #tezukaday, irei abordar este verdadeiro revolucionário do ponto de vista que interessa para o Nahel Argama, que afinal é Seu Porto Seguro para Animes – assim veremos neste artigo de maneira concisa como este fã de cinema, principalmente os clássicos de um prolífico Walt Disney, acabou tendo o seu lado William Hanna e Joseph Barbera.

Na década de 1950 Tezuka contribuiu absurdamente com a nascente indústria de quadrinhos japoneses [manga], tanto implementando desde padrões e referências estilísticas que vão de humanos [só lembrar do Tetsuwan Atom ou Astro Boy] com proporções à Disney [de onde vem os tão comentados olhos enormes associados ao manga e anime como um todo], passando pelo padrão do mangaka possuir assistentes que fazem as de cenários a efeitos de ink and paint e chegando na narrativa de storyboard [que é pensar no manga como a mídia essencialmente visual que é em contraste com autores que até hoje estariam melhor escrevendo livros] quanto ao menos tentando manter um padrão mínimo de qualidade – o que é bom para estimular a concorrência a também subir o nível.

E também Tezuka influenciou pessoas da geração logo posterior a sua como os mitológicos Shotaro Ishinomori, Fujiko Fujio e [alongando a linha um pouco] Go Nagai que pegaram seus conceitos e os modificaram para ir um pouco além: algo que é natural e válido neste segmento da nona arte e como tudo que podemos chamar de arte tem como característica estar em constante evolução.

Mas o seu sonho era realmente partir para a animação – e quando começou a ter possibilidades reais de realizar este desejo o mundo vivia uma importante transformação neste quesito; a chegada da televisão aos lares de cada vez mais pessoas, o que começou a tornar viável a produção de conteúdo próprio especialmente para este tipo de mídia. Em animação podemos nos lembrar do Pica-Pau amenizado dos anos 1960 [que francamente é fraco comparado ao ser que infernizava as salas de cinema nos anos 40] mas somados todos os desenhos a fábrica de sonhos da Hanna-Barbera [Scooby-Doo, The Flinstones] é sem dúvida mais lembrada.

E além do roteiro e direção que estes já exibiam em Tom & Jerry [fizeram o primeiro e diversos outros curtas da era de ouro da dupla] também conseguiram através do que é chamado de animação limitada baratear os custos dos tradicionais esquetes de cinco minutos para um orçamento compatível aos padrões de uma televisão ainda não hegemônica.

Isso nos Estados Unidos que ainda viviam mais intensamente o sonho em partes nostalgiado arpor um Mad Men; imagine como era sofrer no Japão que sim, crescia em ritmo acelerado mas que ainda vivia intensamente os resquícios da guerra que destruiu o país – assim, com a quantidade de dinheiro a qual os americanos esforçavam-se para render cinco minutos os japoneses teriam que potencializar para caber no molde de programação com timeslots típicos de trinta minutos.

Para conseguir chegar a tal ponto ainda convencendo o espectador que estes segmentos animados muitas vezes por somente uma pessoa [mesmo na época de Dragon Ball, quase vinte e cinco anos depois, bastaria uma equipe de dez pessoas para animar um episódio – claro, excluindo-se coloristas e responsáveis pelos cenários] realmente funcionavam [e caramba, artisticamente são bem melhores que os infames desenhos desanimados da Marvel Comics] e uma quantidade infindável de toques foi utilizada por este, sua equipe e seus contemporâneos para fazer a obra funcionar.

Primeiro de tudo: se na Hanna-Barbera e outros os personagens já eram pensados como partes a ser animadas somente quando necessário, aqui somente se fugia do desenho básico quando estritamente requerido – e mesmo se fosse para perder a consistência de um desenho americano [pode não gostar, mas que o Pica-Pau dos anos 1960 até hoje pode ser transmitido sem causar estranheza aos espectador moderno é um dado de nossa realidade], que fosse assim.

Décadas depois isto foi um elemento de cultura que ajudou na característica de maior liberdade estilística dada aos artistas japoneses, com algumas obras chegando ao requinte de deixar a um animador famoso até mesmo toda a animação principal de um episódio [como ocorre em Honey and Clover 07 e Mawaru Penguindrum 09], sendo que é importante também notar que os japoneses também não tiveram nenhuma dó em utilizar à vontade recursos básicos como a ampla presença de zoom e imagens panorâmicas nas quais a câmera somente precisava deslizar para dar a sensação de animado.

Para podermos nos aprofundar mais um pouco, vale a pena assistir este vídeo acima que nada mais é que os dez primeiros minutos de Astro Boy – primeiro, para ter um choque de realidade vendo uma era em que simplesmente aceitava-se que um personagem falasse sem mover a boca [característica que desde sempre foi e é desprezada pelos japoneses, a ponto de um Thundercats [2011] precisar de animação complementar do Cartoon Network Studios [neste é feito toda a parte de sincronismo labial, algo tão característico da animação made in USA]].

Mas mesmo aqui já percebe-se que o traço é bastante semelhante ao de manga, sem fazer muitas concessões [leia-se simplficações] para ser animação; essa característica é básica ao pensar na animação japonesa [mesmo hoje, um Fairy Tail ou Toriko ainda pretende ser menos cartunesco que um My Little Pony ou Adventure Time] e certamente foi um fator que fez Patrulha Estelar ou Os Cavaleiros do Zodíaco impressionar a muitos quando da sua exibição e popularidade.

Além disso, temos diversas técnicas que podem ser vistas com mais facilidade em uma obra um pouco posterior, mas tão lembrada quanto a saga do Pinocchio do futuro: Jungle Taitei, o Imperador da Selva que é Leo – mais conhecido como Kimba no Ocidente por conta da primeira dublagem americana.

Chamam a atenção os diversos desenhos [utilizados como ilustrações deste post], desde borrões de tinta até as ondas do mar, aonde há toda uma preocupação no uso de técnicas – da manipulação de cores até tomadas e filtros que realmente quebrem a rotina e a linha do padrão e possam ser associadas até a obras de arte – que tirem o espectador do marasmo habitual e o insira naquele mundo cheio de vida, de drama e de emoção; tudo soa além de limitado, dramático e apaixonado. Mesmo a trilha sonora, também clássica como a dos desenhos daquela época, tem aquele quê japonês de melodramático um tico além da conta – apesar de que podemos ver aqui que mesmo no Brasil o padrão utilizado era similar.

E os grandes clássicos do anime foram construídos sobre essa base, sob o sangue, o suor e as lágrimas da falta de orçamento que até existem mesmo hoje em dia, mas foram literalmente cruéis por décadas – de Neon Genesis Evangelion a ef ~a tale of melodies~ temos exemplos disto e ainda hoje existem Steins;Gate e Mawaru Penguindrum para provar que não, ainda não existe dinheiro para todos no Japão e que muitas cigarras e barulho de trens fechando ainda serão utilizados até mesmo como recursos narrativos.

E diversas dessas técnicas foram aprimoradas [ou até desenvolvidas] por Osamu Tezuka em seu estúdio Mushi, fundado em 1962 pelo já consagrado mangaka que, inquieto como sempre buscava agora ir além e agora finalmente poderia chegar aos cinemas; mas observando os caros custos da animação para cinema e percebendo uma chance na ascendente mídia que era a televisão, porque não arriscar também aqui?

Tezuka somente conseguiu viabilizar sua obra com um plano que revelaria-se genial em sua praticidade depois: ele pegou um de seus mangas mais famosos, Tetsuwan Atom, e foi a procura de patrocinadores para a obra – conseguiu patrocínio e contratos de licenciamento para esta que incluiam pagamento antecipado para ajudar nos custos de produção -, que pode contar já no seu lançamento com diversos produtos relacionados disponíveis nas lojas.

Sim, é o padrão com o qual estamos acostumados hoje, mas vale lembrar que os desenhos animados descaradamente feitos como propaganda de bonecos somente começaram a se impôr nos EUA nos anos 1980 com He-Man e Transformers entre outros.

Mas mesmo com esse movimento que revelou-se campeão, Tezuka teve que arriscar-se financeiramente para que o projeto obtivesse sucesso – e claro que toda esta dedicação do visionário irá dar frutos – seu Tetsuwan Atom foi simplesmente o anime de maior audiência em todos os tempos [claro, com uma base de televisores bem menor que a atual onipresença tudo é mais fácil em termos de porcentagem] com um pico absurdo de 40% da audiência; atualmente mesmo a toda-poderosa comédia de situações Sazae-san sofre para passar dos 20% sendo uma das maiores audiências de toda a TV japonesa.

Este primeiro anime televisivo, que também foi o primeiro a ser exportado [sob o famoso título Astro Boy, dado em 1965 pelos americanos da NBC] está longe de ser o único destaque da carreira animada de Tezuka [sua imensa variedade nos mangas também foi repetida aqui, do shoujo Ribon no Kishi ao para a época forte e erótico Cleopatra [com seus mamilos em estilo cartunesco], passando por inovações técnicas como Jungle Taitei ter sido o primeiro anime colorido da história.

Porém o toque de Midas para animação logo se esvaiu e o estúdio Mushi decretou falência em 1972 após uma série de fracassos [sendo que Tezuka havia se desligado deste em 1970], apenas um ano após Osamu Dezaki vir com Ashita no Joe [veja só, o canto do cisne do estúdio] e a dupla Hayao Miyazaki e Isao Takahata dirigir Lupin the III – obras que mostram claramente que a estética dos animes iria evoluir fora dos preceitos e da batuta de Tezuka.

Este tanto como mangaka [afinal o premiado e lembrado Black Jack vem depois deste período] quanto como produtor de anime [anos depois seria criado o Tezuka Productions, ativo até os dias atuais] continuaria na ativa até a data de sua morte até prematura para os altos índices de expectativa de vida no Japão. Porém cada vez mais este pouco contribuiria para o futuro dos animes já dominado por outras gerações e outras ideias vindas de pessoas [como Noboru Ishiguro e Yoshiyuki Tomino] com outra cabeça.

Claro que o que é produzido atualmente tem até mais influência direta destes últimos [e de diretores ainda mais novos como o ótimo Hideaki Anno de Evangelion], mas Osamu Tezuka não pode ser esquecido, jamais – afinal sem ele com certeza nem teríamos este ramo da cultura pop japonesa chamado de anime. Pelo menos não da forma que temos hoje.

P.S.: Este texto foi publicado em 17/12/2011 no evento conhecido como #tezukaday; veja também este artigo que conta um pouco mais sobre o evento em si, inclusos os textos recomendados para leitura por parte deste blogueiro.

[obrigado por ler este artigo e espero muito que tenha gostado dele – mas vale dar uma olhada no blog como um todo; afinal, temos resenhas que vão de ao no exorcist a steins;gate passando por kaze no tani no nausicaa – além de artigos que vão desde o fim da tv globinho até o porque da colaboradora @RizyRizy gostar de yaoi. isso, o fanserv- melhor de guilty crown e muito mais em mais de trinta inéditos, originais e deliciosos artigos; boa leitura]

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