Hourou Musuko

“Do que são feitas as meninas?”

Esta questão, apresentada logo no Primeiro Episódio pelo protagonista, pode ser considerada a grande base que conduz a série de animação transmitida entre Janeiro e Março de 2011 nos onze episódios padrão do 1-cour típico do bloco noitaminA e que é baseada no manga de Takako Shimura [a mesma mangaka do shoujo-ai Aoi Hana], com direção do consagrado Ei Aoki [Ga-Rei-Zero, Fate;Zero] e até aqui única animação da divisão Classic do relativamente grande estúdio AIC.

E de cara podemos dizer que um anime que trata sobre jovens que tem de lidar com profundas dúvidas em matéria de gênero e sexualidade simplesmente não é para todos, ponto – exemplificado de cara na bonita abertura, muito eficiente em mostrar o drama em tons pastéis que prima acima de tudo pelo garbo e refinamento em sua abordagem mas que simplesmente é considerada chata por muitos.

Apesar das críticas de muitos quanto a não seguir a risca o manga e simplesmente jogar o espectador em um ponto avançado deste, o Primeiro Episódio tem um objetivo claro que é começar do melhor ponto possível para permitir que em apenas 1-cour tenhamos uma história com começo, meio e fim; sem dúvida uma decisão arriscada que acabou tornando aquele mais confuso do que deveria – fator que torna as críticas válidas – mas que acabará recompensando os poucos que tiverem paciência – e um pouco de coragem, afinal aborda temas ainda espinhosos mesmo na liberal sociedade do começo dos anos 2010 – para irem até o final aqui.

Pode parecer exagero, mas Hourou Musuko vai além da temática e tem toda uma pegada de produção independente, a começar pela animação, feita da forma mais simples possível [e toda baseada em movimentação e pequenos gestos, algo que é tendência em shoujo/josei – Kimi ni Todoke e Usagi Drop tem muito disso] e na fotografia propositalmente branca e aquarelada a dar uma sensação tanto de obra de arte como de recordação de uma infância triste. É diferente, é bem-feito e consegue se destacar frente a tanta coisa genérica feita atualmente.

Mas a animação é literalmente o plano de fundo para uma obra com um feeling igualmente independente, baseado principalmente em diálogos construídos metodicamente [e de certa forma até pretensiosos] em um cenário aparentemente calmo – mais que calmo, pacato seria um termo mais preciso – no qual as emoções, quase nunca reveladas [como é tão comum no Japão e ainda mais no espelho ficcional deste aonde um Kimi ni Todoke é mainstream, é povão] mas parte fundamental neste drama que é bem clássico, apesar de – de novo, a temática que dá o tom da série.

Sim, esta é marcada por abordar de forma franca e moderna [talvez até demais, principalmente no fato dos pré-adolescentes presentes na série terem comportamento algo irreal e talvez maduro demais para a idade precoce que possuem] o complexo assunto da transsexualidade [por tabela, também o paralelo e ainda polêmico tabu envolvendo a homossexualidade] de forma tal que apesar de manter uma postura algo distante de seu espectador – que não surta, esperneia ou derrama emoções, seja pessoalmente ou no caldo de cultura que é a internet – ainda consegue impressioná-lo ao seu final, de caráter algo metalinguístico e conduzido de forma magistral nos últimos três episódios desta.

Impressionar pela competência de contar sua história, seu ponto de vista sobre algo que existe neste que sem dúvida é o anime cult e diferente de 2011 – e cult, como o pop, perdeu em parte a ligação que tinha com o original cultura para assumir outro papel: o de produção feita para uma elite já imersa naquela mídia, fazendo dela seu público-alvo e sabendo explorar as especificidades deste público.

E do clima algo esnobe-chique tão característico destas obras na medida para a crítica até a abordagem feita a assuntos como arte e moda, a série acaba delimitando muito bem quem busca atingir esta obra muito sólida porém de alcance limitado como os filmes citados acima. Pode ser – e é – ótimo, mas até mais que Mawaru Penguindrum é algo claramente restrito a quem for disposto a acompanhar este drama que parece realmente vagar [sim, deve dar muito sono em todos que não apreciarem este tipo de obra] em um enredo complexo, bem-desenvolvido [apesar das claras limitações de tempo] e gracioso – mas que não possui os velhos elementos e clichês que são a receita do sucesso de tantas obras; e que convehamos, todos nós adoramos. E você, está pronto para assistir Hourou Musuko?

8 Comentários

Arquivado em Reviews

8 Respostas para “Hourou Musuko

  1. João Silva

    Um ótimo anime que todos deveriam assistir, pena que não será realidade, graças a montanha de preconceitos que as pessoas carregam em suas costas.

  2. Pss

    Eu amei esse animê, mas realmente não é pra qualquer um. Tema delicado, arte “pastel”(eu gostei, mas nem tdos, né?), e leeeento, muuuuuito leeeeeento.

    Foi difícil chegar até o final, mas valeu a pena.

    E tem razão, eu não sabia que tinham acelerado o mangá, mas isso explica aquele começo confuso.

  3. Hourou Musuko foi realmente um bom anime. Bonito, emocionante, mas, convenhamos, nada empolgante.
    Mesmo assim, no meu caso, assistir a ele não foi nenhum “martírio” como foi para muito. Assisti a todos os episódios numa leva só.
    Minha maior dificuldade mesmo foi conseguir distinguir entre as personagens. A semelhança no character design delas, por vezes, me fazia confundir umas com as outras.
    Mas é isso aí, aqueles que se dispuserem a assistir Hourou Musuko e não tiverem preconceito contra o ritmo da série ou contra o tema abordado, não se arrependerão. Uma obra “obrigatória” para os fãs de drama.

  4. Tive que deixar o preconceito de lado para assistir o anime e não me arrependo.

    Não achei o começo tão confuso, talvez o que pode torná-lo confuso seja a quantidade grande de personagens que aparecem, já que nenhum é realmente introduzido, são simplesmente jogados ali no primeiro episódio.

    Durante a metade da série tive alguns problemas para acompanhá-la, em parte pelo ritmo lento já citado por aqui, mas foi pouca coisa, até porque reclamar de ritmo lento numa série que foi feita para ser lenta não é um argumento muito inteligente.

    No mais, tudo na série é sensível, desde os traços, o jeito de agir dos personagens, a coloração e a música. De certa forma o anime age da mesma forma sensível do seu protagonista.

    Curiosamente Hourou Musuko foi a única série da “coleção grandes obras de 2011”, além de Madoka que tive paciência de ve.

  5. O excesso de travessões me irrita ao ler o texto. Porque esse tipo de pontuação da a impressão de uma pausa longa, e várias pausas longas no texto é irritante. Talvez usar virgulas deixe o texto mais ágil.

    ——-

    Pretendo ver outros episódios desse anime, mas já com o primeiro eu gostei, é muito legal. quando tiver um pouquinho mais de tempo livre vou devorar os episódios. Me parece um ótimo anime e com um boa temática, espero que seja bem excutada.

  6. Pingback: Melhores Animes de 2011 | Nahel Argama

  7. @João Silva: Assino em baixo.

    @Lucas Navarro: Com certeza, obrigatória – nem tanto, mas muito válida.

    @lnisishima: Surpreso por ter visto – e como assim ainda não viu Steins;Gate ou Kimi ni Todoke?

    @Johnny Jonathan: Sugestões anotadas. | Veja, não vai se arrepender – é sim bem-executado.

  8. Pingback: Animage’s Anime Grand Prix 2010 Comentado | Nahel Argama

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