Porque DVDs de Anime Não Fazem Mais Sentido no Brasil

Confesso que o título foi só para fazer você clicar no link – algo como ANIPLEX USA, Madoka Magica e DVDs de Anime no Brasil faz mais sentido pensando-se friamente, mas debaixo deste artigo permeia a ideia que dá título a este. Aproveite os dois títulos confusos e gigantes e leia o artigo a seguir.

Enquanto aqui no Brasil temos o [re]lançamento de One Piece como o grande assunto do momento quanto ao mercado interno, nos Estados Unidos tivemos o lançamento da primeira parte [de três] do anime de 2011, Mahou Shoujo Madoka Magica, em um kit, voltado para colecionadores, que é simplesmente fantástico.

Como vocês podem ver na imagem acima, o pacote inclui:

1 – Três discos: um com o Blu-Ray, outro com o DVD e um terceiro com um CD contendo a Original SoundTrack [Trilha Sonora]
2 – Slipcase para acomodar a Edição de Colecionador
3 – Capa reversível com os dois lados impressos para o case com o BD+DVD
4 – Capa com os dois lados impressos para o CD contendo a OST
5 – Folheto com 24 páginas contendo: entrevistas com a equipe e os dubladores; character designs; manga em formato 4koma desenhado pela character designer Ume Aoki; galeria de arte exclusiva por Gekidan Inu Carry [designers da série]; e muito mais.
6 – Pôster exclusivo com os dois lados impressos
7 – Cartões postais exclusivos das Ilustrações de PreView dos episódios 1 a 4
8 – Stickers exclusivos do mascote Kyubey

Tudo isso, contido em uma bela de uma caixa, é oferecido para qualquer um que esteja disposto a pagar a bagatela de noventa e cinco dólares por cem minutos de material produzido para a TV, o que é claramente um absurdo cometido pela ANIPLEX USA, subsidiária em terreno gringo da maior produtora de animes da atualidade, em prol de querer replicar nos Estados Unidos o mesmo modelo que dá certo no Japão: vender um produto de luxo por um preço abusivo para lucrar muito mesmo vendendo pouco.

Para efeito de comparação, o lançamento de Kuragehime feito pela distribuidora local FUNimation tem o preço de capa em setenta dólares que dão direito aos onze episódios da série de 2010; e para pegar um exemplo fora do âmbito da animação japonesa, o muito aguardado lançamento do Blu-Ray do fenônemo que é Game of Thrones custará oitenta dólares.

Sendo que mesmo estes preços [afinal, você pagaria quarenta e cinco dólares [aproximadamente oitenta reais] mais frete em onze episódios de anime e ainda se consideraria uma pessoa sortuda que soube comprar na pré-venda?] são considerados muito fora da realidade brasileira – c’mon, muitos devem pensar que mais de vinte reais em um anime de 1-cour já é o “absurdo dos absurdos”, sendo que fica quase difícil ampliar o mercado de venda a qualquer nicho maior que os efetivos colecionadores – imagine com este padrão que lembrando, a potencial maior empresa do ramo, quer trazer para fora do Japão.

Na resenha do citado DVD feita “com muito amor e carinho” pelo Anime News Network tem uma passagem que chama a atenção ao afirmar que

It’d have been nice if they’d charged $100 for the complete series in one box with no frills.

Seria legal se eles cobrassem cem dólares pela série completa em um box sem qualquer frescura. Não, não é – e o preço da Edição Regular em Blu-Ray é de 150 dólares pelos três volumes -; cobrar o equivalente de sete a dez volumes de manga por doze episódios pode ser muita coisa – mas justo está longe de ser uma palavra válida aqui. Não faz sentido pagar esse preço se não for hardcore, colecionador e tiver vontade de ter a caixa como um verdadeiro troféu na sua estante; afinal não é isso que muitos fazem com manga?

Agora vale pensarmos um pouco em qual ponto de vista que está sendo abordado aqui – será mesmo que precisamos pensar somente no mercado de anime [e manga] sob o viés da compra? Muitos aqui, especialmente os mais velhos, cansaram de antes do advento da internet de banda larga alugarem filmes – paga-se um preço menor para assistir uma obra durante certo intervalo de tempo; gostou e quer reassisti-la – alugue-a de novo, oras!

E em uma era aonde os meios físicos de distribuição de entretenimento vão tornando-se paulatinamente menos importantes cresce a chamada distribuição digital – e termos como iTunes e Steam cada vez mais tornam-se parte de nossas vidas – vale lembrar que também o modelo de negócio do aluguel foi praticamente refeito de acordo com as possibilidades agora presentes.

E assim o Netflix, locadora americana que começou utilizando um sistema de aluguel via correios, tornou-se um gigante do streaming pago: ao pagar uma mensalidade [na versão brasileira, de quinze reais] você tem amplo acesso a um razoavelmente variado catálogo que pode assistir na hora e jeito que achar melhor, só precisando ter acesso a internet [de preferência bom de uma maneira que o Brasil não costuma proporcionar].

Já em animes temos – além do apenas razoável catálogo de animes aqui no Brasil via Netflix – o CrunchyRoll, que promete algum dia chegar aqui em já amplamente divulgada parceria com a editora brasileira de mangas JBC.

Mas fora daqui este já é uma realidade que conta com aproximadamente setenta mil assinantes dispostos a pagar sete dólares pelo direito de ver dos infinitos Fairy Tail e Naruto Shippuuden as mais novas novidades da temporada como Another, Chihayafuru e Nisemonogatari logo após a primeira transmissão [no Japão, mesmo um anime que passa de madrugada é transmitido ao menos em cinco horários diferentes – muitos via canais UHF].

E quem não quer pagar pelo serviço e não possui exatamente pressa para vê-lo pode legalmente assistir seu anime favorito apenas sete dias depois do episódio ter sido lançado neste, o que além de ser justo acaba sendo uma porta de entrada para muitos usuários neste tipo de sistema de negócios conhecido como freemium [free + premium; de graça + luxos [para quem pagar]].

Além de outras empresas firmes lá fora [especialmente a parceria estabelecida entre FUNimation e NicoNico Douga], há certo mercado também para concorrentes menores como o The Anime Network [que mesmo assim tem os direitos sobre Persona 4 the Animation], há também inúmeros sites que fazem streaming por vias ilegais; oras, se até no Brasil, terra maldita aonde temos uma das piores internet entre os países emergentes, muitos já se utilizam desse recurso, aonde a conexão é estável o bastante este futuro já virou presente.

Um dia, quando houve o chamado boom do anime no Ocidente, houve uma pequena chance de se vender anime em DVD no Brasil, de formarmos um mercado menor mas que – mesmo capenga – funcionasse. Como os mangas funcionam por aqui. Mas a janela fechou, provavelmente para sempre, e o futuro agora é tentar apoiar-se nesta nova construção da forma na qual o brasileiro – e o ser humano contemporâneo – consume entretenimento.

Ainda há o mercado internacional para os colecionadores existentes apoiarem-se, mas a tendência é de, cada vez mais, estes formatos ultra-luxuosos focados para poucos tornarem-se a nova regra.

P.S.: Para quem conhece inglês, vale dar uma lida na série de artigos do Anime News Network entitulada The Anime Economy, principalmente este último, que explica de forma detalhada como DVDs – também os de anime – se tornaram algo do passado de um ponto de vista da lógica do consumidor.

5 Comentários

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5 Respostas para “Porque DVDs de Anime Não Fazem Mais Sentido no Brasil

  1. Saudações

    Acredito que, independente da situação ou do momento que aparenta ser o derradeiro, o que se faz com DVD’s de animes agora é comprá-los à preços baixos ou adquiri-los da forma conhecida em sebos. Isto porque a citação do kit para colecionadores da obra Puella Magi Madoka Magica, em solo norte-americano, acabou me deixando chateado com o mercado brasileiro (e latino-americano) de DVD’s como um todo: capricho, itens à mais e outras características de grande impacto.

    Se mangás de títulos já consagrados são relançados em nosso País o espaço para as demais obras fica escasso? Não necessariamente. Muito embora eu não seja totalmente à favor de republicações (Dragon Ball, One Piece, Rurouni Kenshin e Card Captor Sakura dizem “oi”) sei da importância das mesmas para o público nacional, deveras “preso” à uma opinião consolidada e centralizada demais. Um tipo de “tradicionalismo” ou algo assim…

    Quanto ao Netflix e ao Crunchyroll, desnecessário enfatizar mais alguma coisa. Como muitas pessoas já explicaram com detalhes, esta é a ação para a volta dos animes no Brasil. Por mais que o primeiro tenha um catálogo ainda pequeno e que o segundo deverá apartar no País ainda este ano (com um catálogo inicial que, muito provavelmente, será pequeno), são ações que considero como válidas.

    Um excelente post de sua parte, Qwerty. Mesmo que algumas palavras eu não usasse caso um texto assim aparecesse de minha autoria, o mesmo é de uma leitura convidativa ao mais puro e importante raciocínio.

    Até mais!

  2. O mercado de homevideo em animes é uma loucura absurda que não faz qualquer sentido seja no Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar no mundo.

    O mercado de homevideo não pode estar em alta ultimamente por causa da internet e seus serviços de streaming, mas está em evolução constante não só no mercado internacional onde nós podemos adquirir BDs com legenda em Português do Brasil (incluindo em títulos que nem foram lançados aqui ainda), como no mercado nacional, onde temos várias distribuidoras pequenas dando um banho nas gigantes, em termos de qualidade e oferta.

    Entretanto, parece que o mercado de homevideo para animes vive alienado de tudo isso e continua com os seus lançamentos ridículos, seus gift sets são sempre muito bem feitos, mas ao mesmo tempo nunca conseguem chamar tanta atenção como um Ovo Alien ou os gift sets de games (nem precisa comparar com um jogo AAA), e tirando os extras do gift sets, a maioria sempre vem pelado de extras, às vezes com uma trilha de comentários da produção, algo que não é muito atrativo, ou mais raramente um episódio extra ou uma série de mini-episódios (o que não é o caso da Madoka) que também não acaba tendo relevância nenhuma, muitas vezes falta um making-off ou behind the scenes, ou documentários explorando o universo e detalhando como foi a pesquisa para a produção da obra, algo que é muito comum e atrai os colecionadores normais, digo colecionadores normais, já que acreditam que tirar a censura das cenas de banho já é o suficiente para o lançamento ser um sucesso no Japão, o que não é verdade no Ocidente.

    E ainda nem entramos na parte do preço que é uma prática absurda e abusiva, recentemente a primeira temporada de Fate/Zero, que bateu records de vendas superando até K-ON!, começou a ser vendida por cerca 500U$ que é algo extremamente EXORBITANTE para uma série que tem menos de 300m de duração, algo que já pode ser considerado como extorsão, mas que você compreende se entender a indústria atual de animação japonesa, mas que não passa ser aceitável e só uma mudança gigante na indústria vai mudar isso.

  3. O problema do DVD vai além dos animes. Veja como é complicado para se venser DVD de séries e box de filmes! Isso porque esses dois gêneros até que tem uma clientela bem ampla, mas DVD de animes…. vixi…. aí a coisa vai ralo à baixo. Veja só:

    1 Não existe um grupo de clientes fiéis a esse tipo de mídia, mesmo o a galera que curte representa uma parcela mínima;
    2 Altos impostos… nem preciso falar nada;
    3 Uma distribuidora que quer lucrar e, como você disse, joga o preço lá em cima;
    4 Pirataria…. tá eu sei, um item de colecionador, de luxo…. mas será que aquele fã vai pagar mesmo pelo produto sendo que ele pode ter à mão os episódios para ver quando quiser?

    It’s complicated

  4. Tudo isso tem raiz nos anos 90, quando os Cavaleiros do Zodíaco vieram e as distribuidoras, de forma burra, acharam que qualquer coisa com olhos grandes e cabelo colorido venderia tão bem quanto.
    Trouxeram rios de animes em VHS, a tv exibia um monte de coisa, a Rede Manchete influenciou até o poderoso SBT e em menor grau, a Rede Bandeirantes.
    Trouxeram live-action, hentais, ovas, séries de TV…
    Tudo isso foi consumido no decorrer dos anos 90 e parte do ano 2000, mas já em meados da década de 90 tudo isso foi por água abaixo porque as distribuidoras compraram muita coisa, mas não pagaram os gringos.
    Com o retorno baixo de anime no Brasil, deixaram as coisas por isso mesmo. E claro, nunca mais investiram pesadamente no nicho.
    Nós, até onde pudemos, corremos pros Fansubbers.
    E estamos neles até hoje, 20 anos depois.
    Triste isso.

  5. Pingback: Gloob Rejeita “Animações Japonesas Violentas” | Nahel Argama

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