REDLINE

Clássico, profundamente clássico no estilo. Mas será que o anime de corrida do MADHOUSE realmente é o melhor filme de anime em anos como muitos dizem?

Mesmo considerando que a indústria de animes segue uma lógica com muito de comercial, sempre haverão obras a desafiar esta – porque, geralmente seguindo outra lógica [a marcada por uma postura independente e a vontade de realizar um projeto marcado por peculiaridades que escapam aos padrões daquela indústria] alguns criadores conseguem escapar as imensas dificuldades que passa qualquer pessoa disposta a produzir uma animação; portanto, obras como REDLINE ganham a luz do dia. Ainda bem, porque o mundo seria mais chato se obras corajosas como esta não existissem.

REDLINE é mais um filme de ação [com carros] com uma história genérica feita sem todo um refinamento por trás e sendo apenas suporte para as cenas de ação ganharem alguma coerência e sentido. Há uma corrida – que dá nome ao título – que será a glória do protagonista [descaradamente denominado JP], todo estiloso e clássico; até há pitadas de romance, intriga e um verdadeiro exército de inimigos prontos a literalmente dinamitar os competidores dessa Corrida Maluca realizada em outro planeta, mas o meio do filme é algo arrastado e acaba explicitando a história rasa deste. Mas será que isso importa?

Não. REDLINE não tem qualquer intenção de ser um filme com substância, sendo puro estilo. O projeto foi animado justamente para mostar a capacidade dos responsáveis em fazer uma obra competente que tivesse tudo aquilo que eles queriam e que foi deixado de lado pela animação em seus últimos quinze anos: tanto a arte desenhada a mão, com um character design realmente caprichado e detalhista [e ao mesmo tempo extremamente constante] quanto o cheiro de testosterona [e gasolina] que praticamente exala da tela durante os cem minutos que dura o filme.

Mesmo fora das duas corridas que dão o tom da obra, a criatividade e o amor da equipe para fazer cada detalhe é impressionante – literalmente cada personagem, mesmo que figurante, é bem-desenhado e possui características próprias. E o filme não tem medo de literalmente construir todo um mundo de espécies diferentes de carros, naves espaciais, geringonças diversas, raças de ETs humanóides e demais bizarrices, todas integradas em um mesmo universo e ao mesmo tempo diferentes entre si. Claro, a obra é pura fantasia feita sem qualquer pesquisa científica [até porque fidelidade está longe das intenções dos realizadores] mas a imersão do espectador nesse mundo de fantasia é garantida.

Mas sem sombra de dúvida a gigantesca cereja deste bolo construída meticulosamente pelo diretor Takeshi Koike [Animatrix, Lupin the III 2012] são as duas corridas [Yellow Line e REDLINE] que dão a tônica do filme; ocupando uns bons quarenta por cento do filme, há tempo de construir grandes sequências onde a ação é razoavelmente diversificada – temos inclusive algumas surpresas para o espectador. E isso tudo com o grande destaque do filme, a parte técnica em um nível próximo da perfeição.

Sim, tanto nos visuais como na parte sonora REDLINE merece nota muito próxima de dez; inicialmente, a pessoa pode ser atraída pela bela arte – que é refinada pelo excelente senso de fotografia presente; excelente tanto ao evocar um feeling clássico como em também ter um ar moderno [e que é melhor apreciada na tela grande, em alta definição] – presente nas imagens que ilustram este artigo, mas o filme mostra também animação detalhadíssima e em muitos absolutamente fluida – não é a toa que juntamente com Karigurashi no Arrietty e Uchuu Show he Youkoso foi um dos únicos filmes de 2010 a ser reconhecido como sakuga [boa animação] pela reconhecida sakuga@wiki.

Claro que certas trucagens inerentes a animação [principalmente a japonesa] fazem-se presentes, mas praticamente inexistem frames mal-feitos – e considerando-se o nível de detalhe presente nas cenas este resultado é quase um milagre. E ao lembrar que os outros dois filmes citados acima – e tantas outras obras dignas de serem chamadas de boa animação – tem como característica primordial o character design simples e desenhado com o mínimo de elementos possíveis [até para facilitar o trabalho dos animadores; exemplo fácil disso é Summer Wars, aonde o Yoshiyuki Sadamoto nem parece que um dia já fez um Macross Plus da vida], REDLINE merece ser apreciado pelos fãs da arte.

Completando a parte técnica, o som – principalmente a OST, porque a dublagem é apenas regular – também é excelente, com uma batida moderna e eletrônica que dá um belo clima ao mundo e principalmente as corridas alucinadas de REDLINE; nesse ponto renega as origens japonesas e lembra um Panty & Stocking with Garterbelt – apesar do trabalho de James Shimoji não chegar ao nível de excelência de um m-flo, o resultado – como toda a parte técnica – tem o cheiro bom de gasolina.

Mas somente um bom trabalho dos membros do conceituado estúdio MADHOUSE [que, claro, como todo estúdio grande tem seus Beyblade] não bastaria sem uma direção efetiva – e é aqui que o trabalho do diretor brilha. Mesmo com um roteiro clichê e apenas mediano, a direção consegue ser boa o suficiente para o filme não cruzar a linha do chato em suas partes mais paradas e principalmente trazer toda a testosterona contida neste roteiro à tona.

Sim, apesar de JP ser doce, é basicamente um homem que se importa com coisas de homem: carros e mulheres, símbolos de um estilo de vida clássico[claro, machista – mas nem vale usar esse critério neste filme, que somente usa esses verdadeiros clichês como trampolim para chegar ao seu objetivo] como seu Trans-Am.

E claro que JP é apenas um veículo para transmitir a grande comemoração que é REDLINE: uma homenagem a tempos que os otakus demandavam muita ação com toques de mecha e ficção científica, geralmente com protagonistas machoque exalassem testosterona em cada linha – lembrando que este é um aspecto cultural mundial; afinal, a década de 1980 foi o auge de figuras como Stallone e Schwarzenegger.

De novo é válida uma comparação ao PSG; são obras extemporâneas, fora da linha, aonde os autores apenas realizam os projetos que gostariam de fazer, sem quaisquer preocupações com o processo de agradar algum público-alvo específico. Infelizmente, ambas foram fracassos comerciais, mas tem uma qualidade que supera sua competência como obras: paixão por parte dos criadores.

Este é o grande mojo de REDLINE, e o fator decisivo para ser uma obra tão divertida. Esta paixão, somada a uma parte técnica espetacular e a um diretor competente fazem de REDLINE uma obra obrigatória para qualquer fã de anime – mesmo que seja para tomar um sopro de ar fresco do que é feito atualmente no Japão. Provavelmente, um cult a ser assistido e apreciado por alguns poucos mas valorosos fãs no futuro– mas infelizmente, é isso.

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5 Comentários

Arquivado em Reviews

5 Respostas para “REDLINE

  1. Redline é um ORGASMO visual, e sabe muito bem disso… é um filme extremamente “Over the Top” , e o resultado é um filme muito bom pra ver, desde que não venham com mimimi de querer achar profundidade…

  2. Concordo plenamente. Ver um clássico desses com a tecnologia atual em animação é puro deleite. Espero mesmo que o enredo siga o nível do gráfico

  3. Saradan

    Considero a melhor animação que já vi na minha vida toda! Esse filme é para dar um belo chute na bunda dos estúdios atuais que apelam demasiadamente para CG. E pelo que vi esse filme demorou uns 7 anos para ser feito (corrijam-me se eu estiver errado) mas valeu a pena a espera. Se todos os estúdios de animação se dedicassem a animação sem CG nem ligaria se tivesse só uns 5 animes por temporada por que pelo menos seriam 5 animes com ótima qualidade de animação.

  4. Pingback: Ichiban Brasil 2012 | Nahel Argama

  5. A impressão que tive foi a de ver um filme em avanço rápido. Toda vez que tinha uma pequena pausa eu reparava que estava literalmente ofegante com toda aquela adrenalina, gasolina e cool jorrando pra todo lado.

    Vi o filme ontem e ainda me sinto estuprado por 100mil quadros desenhados a mão.

    Pior que eu peguei o filme exatamente por causa da recomendação aqui(e no tuito), portanto eu já tinha visto essas cenas postadas por você, mas eu achava que esses eram pontos bem específicos do filme, não pensava que a animação toda iria ter esse estilo. Foi uma bela surpresa quando o filme começou e vi aquelas cascas de pistache sendo cuspidas e animadas lidamente. Como você mesmo disse, foi um maravilhoso ar fresco para o que vemos todo dia, porque se Tsuritama dessa temporada já é considerado um “estilo diferente”, para Redline então, não teríamos nem palavras.

    Quando procuro uma anime ou um mangá pra ver, sempre estou ciente das limitações da mídia, por isso sempre procuro originalidade acima de tudo, mesmo antes de profundida, desenvolvimento psicológico, enredo bem construído, originalidade é o que mais me interessa e por isso gostei tanto de Redline. “Provavelmente, um cult a ser assistido e apreciado por alguns poucos mas valorosos fãs no futuro– mas infelizmente, é isso.”

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