Adaptar é Preciso

Dois posts do Subete Animes que falam sobre o mesmo tema, agora unificados, revisados e integrados aqui no Nahel Argama.

Parte I – Adaptar é Preciso

Um dos contras de ser fã, ou seja, possuir um objeto do qual este seja fanático a ponto de ter sido picado pelo mosquito da curiosidade que diferencia este nerd do resto da população, é o fato de pesquisar o suficiente a ponto de descobrir – e adorar – o original [claro, com exceção de casos em que a memória afetiva funciona magnificamente, como na dublagem de Chaves – ou alguém é louco de ver em espanhol?].

A própria memória afetiva que alguém que viu Lost, Bleach ou Nodame Cantabile primeiro no original alia-se com a síndrome de underground muito presente no nerd, do qual o conceito ocidental de otaku é meramente uma subdivisão [no caso, dirigindo-se aos fãs de cultura pop japonesa, especialmente a animação daquele país]; para este tipo de fã o original acaba sendo praticamente um objeto sagrado, e como tal merece um tombamento simbólico por parte dos responsáveis.

Certo que decisões no mínimo discutíveis como as constantes mudanças de George Lucas na trilogia clássica de Star Wars ou uma abordagem infeliz do licenciante 4KIDS com One Piece dão motivos para o fã ficar desconfiado, mas a proteção excessiva por parte destes com alterações em geral acaba sendo muito desproporcional.

Exemplo que demonstra essa proteção desmedida no fandom brasileiro de anime/manga foi a polêmica instada pelo @maisdeoitomil sobre tradução de mangas – o argumento do denominado #TeamPanini ser o melhor por fazer uma tradução feita pela metade está bem presente, sendo que muitos sentem-se “imersos” na cultura japonesa simplesmente por fatores que inclui uma questão supervalorizada como a dos famosos honoríficos.

Além da óbvia e realista resposta que se a pessoa realmente estiver interessada na cultura [pop] japonesa que vá estudar [com esforço e tempo, até o idioma japonês é possível de aprender pela internet, apesar deste não ser o caminho recomendado] e deixe a possibilidade de animes/mangas também estarem disponíveis para quem estiver simplesmente interessado em ler uma história boa e/ou divertida.]

Além disso, traduzir uma língua é muito mais complicado que simplesmente adaptar pronomes de tratamento. Os próprios honoríficos acabam sendo mais complicados do que muitos pensam: existem desde alguns mais raros como –rin e –tan até usos específicos que requerem atenção, como o de um homem velho referir-se a uma menina como –kun, indicando que a considera simplesmente como uma criança.

Enquanto isso questões como as múltiplas palavras que significam euore, boku, watashi, atashi – são simplesmente ignoradas tanto por grande parte dos formadores de opinião quanto pelo seguidor médio.

Pois é, trazer uma obra para um país tão diferente do de origem é um trabalho para profissionais. Claro que há amadores [tanto no sentido de não terem a estrutura dos grandes e estabelecidos quanto no de não preparados para a tarefa demandada] no negócio, mas quer ver uma crítica muitas vezes infundada feita por muitos quando da exibição de animes na televisão aberta?

A mudança ou simplesmente não-exibição de aberturas e/ou encerramentos.

Claro, um dos aspectos no qual o Japão atingiu um nível invejável de complexidade é a apresentação dos créditos de suas obras, geralmente nos 90s iniciais e 90s finais da exibição – muitas sequências viraram clássicos, e outras talvez tenham transcendido esse aspecto [ou você não lembra de tank, o tema de abertura de Cowboy Bebop?]. Assim, como os malvados americanos ousam moldar a abertura de Naruto como se fosse simplesmente mais um desenho?

Mas essa primeira abertura americana de Naruto é sim melhor que a primeira japonesa a qual substitui – e mais que justo o Cartoon Network querer encaixar o anime com uma mudança na medida para vender a obra para um público-alvo maior que o padrão para animes e que, francamente, não muda nada no produto final. E, veja só, no Japão surpreendentemente fazem a mesma coisa!

Talvez você tenha visto algum dia a abertura japonesa do desenho animado dos X-Men [1992], que foi estendida para os 90s aos quais os japoneses estão plenamente acostumados. A prática existe faz tempo e não é em tempos de internet e informação praticamente instantânea em escala global que foi acabar.

Assim em 2010 a TV Tokyo decidiu exibir a animação Transformers Animated, feita na esteira do sucesso dos filmes dirigidos por Michael Bay que revitalizaram a famosa franquia de brinquedos – e para isso a Takara Tomy [detentora desde sempre dos direitos desta no Japão] decidiu em vez de usar a abertura americana decidiu fazer uma versão própria e adequada a exibição em rede nacional nas manhãs de Sábado. Assim como o exemplo de Naruto citado acima, o resultado final é superior ao original e principalmente mais adequado ao público-alvo.

Sim, adaptar – porque ao contrário do que muitos pensam, o chamado casual não é burro e/ou inferior, ele apenas tem pouco interesse em determinada área de discussão – é preciso. Claro que a qualidade é essencial e o público tem que ser exigente com os produtos que consume [sempre há um consumidor, mesmo em mídias como a na teoria grátis TV aberta – os anunciantes sabem muito bem que seu investimento possui grandes chances de retorno graças justamente a você, espectador] mas a tolerância do fanático é infelizmente por definição mais baixa do que deveria.

Uma maior disposição das empresas responsáveis por fornecer soluções múltiplas em uma época de transmissão de entretenimento virtual através plataformas como iTunes, YouTube ou Crunchyroll ou mesmo recursos como a boa e algo velha combinação de tecla SAP e Closed Caption [nunca tentou assistir a algum filme e série no original utilizando-se deste artifício?] nas televisões mais tradicionais pode muito bem ser um bom começo; mas certas mídias como o manga deveriam mesmo é ser alvo somente de maior tolerância por parte do sempre bravo fã.

Parte II – O Caso Concreto de Ika Musume

Um dos traços cômicos deste algo conhecido anime de comédia moe é o fato da personagem principal, uma lula em forma de uma garotinha com apenas alguns acessórios que lembram o animal representado [como os cabelos que funcionam como tentáculos], usar incessantemente construções de frase que forcem o “ika” [que significa lula em japonês] e terminar outras tantas com “geso” [literalmente, tentáculos utilizados como comida] – sim, uma tentativa leve de fazer trocadilho mas que não se compara ao que acontece na legenda oficial [em inglês; e posterior dublagem nesta língua], famosa – e algo polêmica por criar trocadilhos bem mais ostensivos sobre lula e inseri-los no diálogo.

O problema é que neste caso o conteúdo parece ter sido modificado em prol de piadas não-existentes no original. Uma coisa é o que acontece em um Crayon Shin-chan, tanto terrivelmente engraçado para os japoneses quanto para os americanos mesmo após mudanças drásticas no script; outra é Ika Musume, que é praticamente um misto de comédia com feel good anime no qual muito da intenção do original em colocar esses maneirismos na personagem foi deixa-lá mais moe.

E uma coisa que é menos levada em conta do que deveria na hora de legendar-se uma série do que deveria [e que poderia ser aplicado aqui com ganhos] é o fato de uma boa legenda guiar-se pelo princípio de que menos é mais: ela deve ser o mais enxuta [claro, mantendo a correspondência de sentido] possível para que o espectador tenha mais tempo para dedicar-se a outros aspectos da obra – o que inclui ouvir a obra [e no caso, os -ika e -geso].

Assim, fica-se com uma questão complicada em mãos: simplesmente cortar esses maneirismos na legenda e deixar que o espectador eventualmente perca um aspecto secundário do anime ou tentar incorporá-lo de um jeito algo forçado e que introduz um elemento não presente no original?

Fico neste caso com a escolha dos puristas, principalmente por estarmos tratando de uma legenda – e que conta com a voz original, também sem o aspecto adicional.

Agradecimentos a Leandro Nisishima pela ajuda prestada para a confecção desta segunda metade.

5 Comentários

Arquivado em Estudo

5 Respostas para “Adaptar é Preciso

  1. Temos que nos adaptar a adaptação. (ou não)

  2. Jader

    A questão dos honoríficos, na minha opinião, não é somente uma questão de estética, tipo: “Ah, eles não põem honoríficos, são uns hereges. Mimimi.”
    É possível adaptá-los, mas tem que saber o que está fazendo, para não comprometer a tradução.
    Alguns exemplos:

    Por que a Orihime não chama o Ichigo de Ichigo, como a Rukia, mas de Kurosaki-kuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuun?
    Se trata de uma questão de intimidade. Por mais que ela esteja próxima dele, ela não sente próxima o suficiente para chamá-lo pelo nome. E essa sensação de distância que ela tem é evidente e utilizada pelo autor durante a obra.
    Não estou dizendo para que deva ser mantido tudo, mas também não dá para colocar na legenda ela dizendo: “Ichigo, espere por mim.” Não tem nada a ver. Faz mais sentido um: “Kurosaki, espere por mim.”

    Em Ben-to quando as gêmeas Sawagi conversavam, uma dizia algo assim:
    “Kyou, hoje nós vamos derrotar a Beuxa de Gelo.”
    E a irmã mais nova responde: “Isso mesmo, nee-san”.
    Aí você olha a legenda e lê:
    “Kyou, hoje nós vamos derrotar a Beuxa de Gelo.”
    E a irmã mais nova responde: “Isso mesmo, Kyou”.
    Eu sei que ambas se chamavam kyou (Kyou’s bem diferentes, por sinal), mas o nee-san estava lá exatamente para diferenciá-las. Não queria usar nee-san, beleza, usasse MANA então.
    Agora imagina isso num mangá onde você não pode ouvir o que dizem os personagens.

    Em Brave 10, quando a Isanagi chamou o Saizou de sai-chan, colocaram SAIZINHO.
    Eu acho feio e estranho. Mas transmite exatamente o que ela queria dizer. Então não há erro algum. O resto é uma questão de gosto.

    Não sou um fã hardcore, mas acho que deveria haver pelo menos mais sensibilidade na hora de fazer adaptações. Não somente do japoês, como de outras línguas.
    Se você não encontra algo a altura para representar aquilo que é falado/escrito no original, mantenha o máximo possível e não tenha vergonha de colocar umas notas no rodapé.

    Parabéns pelo post.

  3. Likou

    Discordo da primeira abertura de naruto ser pior q essa versão editada tosca americana com música q parece remix de power rangers.

    “Mas essa primeira abertura americana de Naruto é sim melhor que a primeira japonesa a qual substitui ”
    Vc destruiu um pouco sua argumentação ao afirmar com certeza algo q vai de opinião.

    • Poise, quis ser mais incisivo [a primeira versão do texto acaba dizendo que é opinião mas acaba caindo naquilo de “texto em primeira pessoa”] e acabei indo por esse caminho [sendo que como o texto não é sobre aberturas de Naruto também não gastei muito tempo dissertando acerca destas].

      Enfim, EM MINHA OPINIÃO é sim superior e o JRock insípido dessa primeira abertura japonesa acabou convencendo quase ninguém.

  4. Pingback: Editorial #01: Nós, A Tropa de Elite dos Otakus | Nahel Argama

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