Hyouka, Kyoto Animation e Rococó

Quando o brioche torna-se mais importante que o pão.

Junto com o SHAFT, o Kyoto Animation sem dúvidas é o estúdio de animação japonesa mais importante e influente da atualidade – ao menos para a parcela hardcore dentre os que assistem os desenhos animados japoneses – no caso, os exibidos nas madrugadas da TV japonesa ou em sessões exclusivas em alguns cinemas.

E como todo realizador de alguma forma de arte que consegue atingir um certo grau de sucesso comercial fazendo o básico, logo este começa a dispor de mais recursos e liberdade criativa para poder fazer literalmente o que quiser. E enquanto alguns usam disto para realizar produções geniais – e impensáveis antes – outros simplesmente desperdiçam a rara oportunidade que tem em besteiras, mesmo que bem-intencionadas.

A trajetória do Kyoto Animation ao sucesso comercial e reconhecimento principalmente por parte do fã de anime veio por obras que primam pelo apelo ao nicho e por entregar em uma bela embalagem o sonho e a fantasia do moe, da garota fofa, pura e inocente que irá sempre estar ali, esperando por você. Suzumiya Haruhi Series à parte [e mesmo este pode ser encaixado na definição acima] a reação a Full Metal Panic Fumoffu, CLANNAD ou K-ON! é a mesma: popularidade no fandom a ponto de ser considerada referência nos sub-gêneros específicos ao mesmo tempo que a crítica reconhece suas qualidades mas que evita dar a nota máxima, evita colocar em seus favoritos.

Mas o que importa, não é mesmo? Com dinheiro para poder entregar alguns dos animes tecnicamente mais bem-feitos dos últimos anos [sendo que somente o Production I.G. consegue competir na produção televisiva com seus Higashi no Eden ou Guilty Crown], o Kyoto Animation escolheu polir ao máximo seu estilo ao mesmo tempo em que deixou a substância de lado.

Antes de Full Metal Panic ou AIR, a primeira obra do estúdio – e a única até aqui genuinamente autoral deste – foi o já esquecido Munto, inicialmente um OVA de 2003 que ganhou tanto uma continuação direta em 2005 quanto um amplo remake televisivo em 2009 [com o longo nome de Sora wo Miageru Shoujo no Hitomi ni Utsuru Sekai]. Simples e razoavelmente efetivo, conta uma história básica de amor e fantasia no qual o destaque é mesmo o character design efetivo e a animação de qualidade característica do estúdio [ainda que somente sombra do que se tornaria mais tarde].

Com o sucesso moderado dos OVAs e posteriormente o fracasso retumbante da série de TV, até aqui o estúdio ainda não teve cacife o suficiente por parte principalmente da produtora e parceira Kadokawa para bancar outra produção própria; e até pela falta de alguém com ambição suficiente para esta tarefa, isto não deve acontecer – mesmo se continuarmos com o repertório de muitos sucessos e alguns fracassos – em breve.

Sendo assim, atualmente o estúdio tem se especializado em adaptar livremente séries alheias, de forma que a marca deste esteja impregnada juntamente com o original – e os dois exemplos mais marcantes desta nova era de foco em muita experimentação em técnicas de animação, direção e entrega de roteiro são sem dúvida Nichijou e Hyouka.

Claro que apesar de ter utilizado acima a forte palavra que sugere algo experimental e totalmente novo, toda uma série de limites são claramente marcados de forma com quem teoricamente tenhamos uma obra plenamente comercial. O traço continua sendo bonito, elegante e fofo, as histórias continuam sendo leves e [ao menos pretensamente] cômicas, o plano de fundo continua sendo a vida escolar de uma série de personagens.

Mas além do básico, feito obviamente para agradar os investidores que colocam não pouco dinheiro no estúdio, este também investe em uma combinação de direção e animação recheada de pensamento e técnicas efetivas para tirar o máximo do roteiro – de inúmeros filtros para fazer tudo parecer mais estiloso até a adequação da combinação arte e animação a atmosfera que o anime busca passar, cada segundo aqui é trabalhado com carinho pela reduzida equipe presente em Kyoto.

Usando o exemplo que dá o título a este artigo, o character design que adiciona o traço básico de K-ON! a uma camada de firula e elegância que remete às adaptações do key feitas anos antes pelo estúdio e uma fotografia e paleta de cores mais escura e opaca que forma toda uma atmosfera mais agridoce na medida para a história que está sendo contada; claro que um Sankarea ou Tasogare Otome X Amnesia [que foram transmitidos junto a Hyouka] até tentam fazer o mesmo, mas com as cores saturadas de sempre e uma sensação geral de “cru”.

Além disso, a excelente trilha composta por música clássica sabe ser complementada por silêncios e a escolha de ângulos de câmera pode não ser a mais efetiva para cada cena [e aqui que um experiente Akiyuki Shinbo acaba fazendo falta] mas sem dúvida é refrescante e sempre criativa ao espectador. Caso seja um curioso por anime como arte, caso queira ver até aonde estes artistas entregam belos quadros que se movem com graça nas telas finas que são o padrão em 2012, assista Nichijou, assista Hyouka. Como pode ver nas imagens apresentadas aqui, o trabalho é sensacional. Só que…

O roteiro, tanto em Nichijou quanto em Hyouka, é simplesmente medíocre – no sentido do dicionário de “mediano”, “na média”. Enquanto o primeiro divide opiniões sobre se é ou não engraçado [e esta é a função primeira de uma comédia, especialmente de uma baseada nas famosas tirinhas japoneses denominadas 4koma], o segundo segue a linha de GOSICK de ser um anime de mistério no qual o melhor é a interação entre o par de detetives, igualmente dividindo opiniões sobre ser charmosa ou tediosa a longa jornada de 21+1 episódios que lhes aguarda.

Claro, Hyouka está longe de ser ruim, mas se conforma em ser simplesmente mediano. Claro que acaba sendo competente o suficiente para atrair certo fanbase e pode sim ter certo destaque [oras, se K-ON! provavelmente é no momento o grande representante da atual safra de produções nipônicas] mas seguirá dividindo opiniões e no máximo sendo considerado um bom anime, mas nada perto de inesquecível. Justo.

É sim válida uma obra nesses moldes, mas o ponto deste artigo é justamente apontar que todo esse refinamento do por muitos o estúdio de animação mais querido do Japão é sem dúvida o maior desperdício de potencial existente atualmente na animação japonesa. O mais difícil que é ter os meios e uma equipe preparada para entregar grandes obras a seu espectador eles tem; assim porque entregar mera firula, mero rococó animado que grande parte de seu valor está em ser bonito? Uma pena, uma grande pena.

E o triste é que existe certo risco deste, ao perder a mão ainda mais a frente, tornar-se meramente um modismo do passado, algo utilizado meramente para marcar-se um determinado período de tempo; não é exatamente o que podemos fazer com os tempos áureos do ousado GONZO principalmente na primeira metade da década de 2000? Fica a lição; duro é saber qual o caminho do KyoAni daqui para a frente.

13 Comentários

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13 Respostas para “Hyouka, Kyoto Animation e Rococó

  1. Hyouka é um dos animês que eu mais estou curtindo essa temporada, juntamente com Natsuiro Kiseki, mas não por ser ‘ MUITO BOM WOW QUE FODA VOU EJACULAR :0 ‘ mas simplesmente porque me tira do tédio e me prende na trama… err… isso no caso de Hyouka… Natsuiro é bom e pronto. e_e

    Mas realmente, em relação a Hyouka, acho que toda essa coisa ‘bem feita’ é desperdício em um anime que somente chega ao BOM! Enquanto à tantos animes como Steins;Gate e… e… — coloque um animê com roteiro legal e detalhes técnicos mais pobrezinhos aqui — merecendo um cuidado maior do que o que tiveram… |:

    Btw, eu to curtindo Hyouka, é lindo assistir aquilo~❤

  2. Jader

    Hyouka é legalzinho, e é LINDO.
    Precisa mais?

  3. Crítica Pertinente. Essa parceria com a Kadokawa, tem se saído uma faca de dois gumes. Limita o pessoal a produzir algo em que eles apostem mais, por causa daquela regrinha deles só pegarem um 1 anime por vez, e a pegar projetos como este. Acho que com tamanho investimento, nenhum estúdio recusaria tal parceria. Nichijou foi um fracasso, mas não deve abalar tanto quanto um Panty & Stoking, justamente porque tem alguém pra arcar com os prejuízos. E Hyouka deve vender horrores, porque está longe de ser tão extremo quanto Nichijou (e convenhamos, Nichijou não tem a Chitanda, a waifu perfeita), então a longo prazo, eu nem vejo grande prejuízo ao estúdio. Diferente de um GONZO, MADHOUSE. Acho que a diferença está no planejamento. Acho que se não fosse uma Kadokawa por trás, dificilmente eles pegaram um Nichijou pra fazer. O maior desafio mesmo, é ser um estúdio pequeno, que pode sofrer com a dissolução, assim como houve com o GAINAX. Mas até mesmo diferente deste, eles tem um foco bem definido (o que deve evitar atritos como houve com o GAINAX), então eu espero que os bons lucros, tragam coisas mais positivas no futuro.

    E quanto a Hyouka, dormindo aqui com os episódios, de tão chato que aquilo está. Poderia ser um problema só meu, mas a história realmente é desinteressante, por mais que alguns possam curtir. O que cega a todos é são os valores de produção. E confesso que só continuo por isso. Se Hyouka fosse do J.C. STAFF, seria outro Kamisama no memo-chou da vida, com meia dúzia achando legal e os resto tacando pedra.

  4. Alzemir

    Hyouka est[a nos meus tops. Acompanho com anseio os episódios e acho os misterios interessantes. Os personagens são interessantes, ( pelo menos eu nao senti aquela atmosfera forcadamente moe nos episodios ate aqui) a história ate aqui é interessante. Enfim, bom anime. Podia se fazer mais, se arriscar mais? CLARO que se podia, mas NINGUEM faz anime por prazer a arte, faz pelo LUCRO.

    E chato? E, mas e a realidade do mercado. Acredito que a kyoto-animation continua sendo um excelente estudio de animacao, mesmo com um potencial disperdicado

  5. A história pode parecer meio rasa, mas aborda algo mais perto da realidade, e isso é interessante. Mistérios “cotidianos” e do ambiente são atrativos. Os personagens aparentam ser clichês, mas suas filosofias permitem que o espectador se identifique com eles e isso dá destaque a mais. O ritmo do enredo é bem lento, bem lento, lento, lento ate demais, chegar a me dar sono. Tem também partes cômicas(que não rio bagarai) e de possíveis romances. É uma série boa(hmm), que consegue cativar o espectador com seus atributos e possibilidades em seu enredo. Hyouka merece um Oscar, aliás, um Ichiban seria melhor.

  6. Kyoto animation é um estúdio bem administrado e de nome como já citado que acaba aposta em animes comerciais tornando-o bem solido financeiramente onde mesmo um fracasso comercial como Nichijou não o abala tanto, exceto por alguns fãs extremistas…

    • Abalou sim, tanto que acho difícil fugirem de um character design mais refinado; Hyouka foi K-ON!-ificado muito por conta disso, não poder dar chance ao erro.

    • Mirukage

      Caramba, cara, pesquise mais.
      Nichijou tem um dos mais altos investimentos da Kadokawa nos últimos anos.
      Tem vendido 600 cópias no volume 8, por exemplo. É irrisósia a venda.
      Foi tema de discussão intensa sobre Kadokawa e KyotoAni, o qual quase levou a cisões. Só que como o dinheiro e a parceria falam mais alto, foi escolhida (2 cours após) uma das Light Novel mais influentes em vendas da Kadokawa.
      Hoyuka está entre as 3 maiores preorders da Amazon Jp da season atual…Não parece que fracassará dessa vez.
      Obs: Adoro Nichijou, mas fazer o que?

  7. Problema de Hyouka não é que é chato, mas sim que está repetitivo, afinal todos os episódios seguem a mesma linha: Surge o mistério, ninguém saca nada (aquele bando de asno) e enfim o principal manda a solução toda como se aquilo pudesse ter sido imaginado desde o ínicio. Ou seja tediozzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

    Mas dizem que no ep 8 (+/-) a história vai tomar um rumo, até lá é só aguardar.

  8. Particularmente eu não acho Hyouka desinteressante. Sim, não acho nem mesmo que o roteiro seja lento demais. Pelo contrário, me surpreendi que grande parte do mistério envolvendo o incidente no clube de literatura já foi resolvido no TERCEIRO episódio. Pra uma história de investigação, até que foi muito rápido. Ainda há várias pontas soltas (onde estará o tio da Tachibana? O que a irmã do protagonista anda fazendo em suas viagens? Como ela sabe tanto sobre o clube? Onde está o primeiro volume de Hyouka? Quem o escondeu e porquê?) mas a resolução do principal mistério logo no começo do anime já me deu a certeza de que vão resolver todo o resto. Estou empolgado pelo que está por vir. A bela animação pra mim é apenas um mero detalhe. Exagero, talvez? xD

    Desculpe discordar do autor da matéria, quando chamou o roteiro de Nichijou de “medíocre”. Espera aí… esse é um anime de comédia se não me engano, assim como K-ON, Lucky Star, Kore wa Zombie ou Acchi Kocchi. O objetivo deles é simplesmente te divertir, te entregar uma comédia pura, sem compromisso com mais nada. Nichijou não seria Nichijou se tentasse levar a história a sério (e claramente nunca tentou, desde o momento em que surgiu aquela menina robô com uma porta USB no pé, lol).

    • Falo em Nichijou ser mediano [medíocre acaba parecendo que odeio o anime] pelo fato de para muitos, eu inclusive, falhar em simplesmente ser engraçado. 24 minutos de comédia renderem uma risada e três ou quatro sorrisos amarelos não é bem o que se espera de uma comédia “pura”.

  9. Pingback: Eiga K-ON! Vende 140 Mil Discos Na Primeira Semana | Nahel Argama

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