Fode Sim, Gyo

Longe de ser perfeito, Gyo irá dividir opiniões. Mas sem sombra de dúvida podemos afirmar algo a seu respeito: deveria ser mais divulgado, comentado, afinal é uma obra com potencial de agradar um público que tradicionalmente não vê anime.

Ah, o horror. Apesar da animação japonesa como um todo ser direcionada especialmente a um segmento jovem da sociedade deste país [e no geral jovens serem o grande público-alvo deste tipo de história], este é um gênero [tratado aqui de forma lato sensu; sim, vamos colocar horror, mistério, suspense e terror no mesmo barril] que sempre foi deixado meio de lado desde sempre. Mesmo existindo de Gegege no Kitarou [rara obra a ganhar espantosas cinco versões até aqui] a Shiki e Another, rara é a obra que atinge mesmo relativo sucesso. E assim os muitos fãs [principalmente deste lado do globo] do gênero sofrem. Como sofrem.

E se mesmo um HOTD [Highschool Of The Dead] consegue ser, apesar de ser uma óbvia mistura do gênero zumbi com toda a essência de mulheres peitudas sendo peitudas que definem um Ikkitousen ou Queen’s Blade, sucesso considerável a ponto de mesmo o manga ser sucesso em nossas bancas, imagine então quando Junji Ito, consagrado autor dos conhecidos Tomie e Uzumaki, finalmente ganha uma adaptação de uma obra sua para a telinha?

Gyo veio pela batuta de um projeto da produtora ANIPLEX e do estúdio de animação ufotable conhecido como Anime Bunko, no qual três projetos [os outros são Minori Scramble e Yuri Seijin Naoko-san] foram escolhidos mais para uma forma luxuosa de dar aos membros do estúdio a chance de mostrar [e polir] suas habilidades em obras com maior liberdade que o usual em anime [pensando no próprio ufotable, em Fate/zero a pressão para diversas coisas serem exatamente como decididas previamente pelos produtores é obviamente insanamente alta].

Assim, Takayuki Hirao [diretor do excelente quinto filme da série Kara no Kyoukai e veterano do estúdio] teve muita liberdade para fazer a obra que quis, inclusive fazendo o projeto pular dos costumeiros trinta minutos para incríveis setenta, o que nos deixa na linha entre um média e um longa-metragem. Além disso este acumula os cargos de diretor, roteirista [junto com Akihiro Yoshida] e storyboarder – enfim, claramente pode fazer o que quis com o original de Ito.

E o resultado é [vale ressaltar que este review foi feito puramente baseado no contato com o anime; portanto não iremos comentar acerca do original] uma obra que meramente pega os conceitos do original e monta em cima deles uma obra com um feeling todo próprio. Assim, temos aqui a história de Kaori, que está em Okinawa a passeio com duas amigas quando começa a acontecer ali uma verdadeira invasão de peixes… que andam.

Sim, apesar da ideia aqui é termos basicamente um thriller baseado em muita correria, somos apresentados a um festival de bizarrices que pode não ser para o paladar de uma ou outra pessoa mais sensível aqui aclimatam-se em um verdadeiro circo de horrores feito na medida para o entretenimento de um espectador médio.

Pouco importa o roteiro, que soa genérico como em qualquer destes filmes feitos para locadora e é calculado o suficiente para muito do que irá acontecer seja óbvio até demais na mente do espectador. Até parece intencional, só não o é por conta de em alguns trechos tentar forçar descaradamente qualquer filosofia barata que simplesmente não faz o menor sentido.

Já o objetivo do diretor e roteirista ao criar personagens que variam entre chatos e simplesmente desprezíveis é alcançado, – sim, aqui é uma obra [OLHA O SPOILER!] aonde o final apocalíptico e pessimista pode ser visto de longe – e chega ao ponto do espectador realmente desejar que certos personagens morram; afinal, estes [que podem ser personificados principalmente nas algo desenvolvidas amigas de Kaori, Aki e Erika] seres humanos desprezíveis merecem mesmo morrer da pior forma possível.

E apesar da violência ser gráfica, ela acaba sendo extrema o suficiente para afastar possíveis espectadores; assim, está liberado aquele sorriso sádico reservado para quando os personagens finalmente atingem seu destino. E a misantropia [ódio a humanidade] presente neste tipo de obra acaba algo intencionalmente também se refletindo-se na protagonista: Kaori parece ser poupada todo o tempo pelo roteiro mais por ser indiferente e vazia que por sua bondade desenvolvida como uma folha sulfite em branco.

Diferentemente dos outros personagens, que – sim, mesmo o cameraman criado para esta animação que torna-se o verdadeiro parceiro da Kaori em sua jornada na busca por Takashi – tem alguma personalidade, o casal principal soa tão clichê, tão sem vida que assusta. E se nem o amor entre eles soa real, alguma coisa há de errado nesse Reino da Dinamarca…

Se o roteiro apesar de que não cair no terreno do ruim é absolutamente fraco e esquecível [calma, iremos ainda voltar nisto] a estrela aqui é a direção que conduz uma obra muito fácil de assistir. Não temos qualquer momento de brilhantismo, mas a condução é boa e até alivia um pouco dos erros do roteiro.

E agora temos que voltar a proposta do filme, que é ser um thriller com aquele toque de horror e bizarrice que muitos adoram ter ao menos de vez em quando em seu cardápio. Gyo é assim deliciosamente trash, divertido e – para as almas com um pouco de sadismo em seu coração – engraçado. O prazer aqui é ver a situação cada vez pior para todos aqueles personagens, sendo que o final só reforça isso. Sustos e/ou aquela sensação mista de ao mesmo tempo querer tapar os olhos mas estar terrivelmente curioso para ver o que acontece? Só para os fracos.

E aí que os fãs do original e de Junji Ito devem estar bravos. Sim, apesar do nome Gyo, onde está a essência da obra? Então, a liberdade citada acima concedida ao diretor e demais responsáveis fez com que este anime que compartilha o mesmo nome e conceito na verdade fosse outra coisa. Claro que divide opiniões, mas não vale aqui analisar uma obra pelo que ela poderia ter sido e sim pelo que é.

E este filme é um trash no qual, para o bem e para o mal, temos a marca indefectível de Takayuki Hirao. Este foca em termos aqui uma obra agradável de assistir e, apesar dos excessos cometidos para isso, principalmente no fato do roteiro por vezes tentar ser algo a mais do que é somente para falhar miseravelmente, o saldo geral é levemente positivo. Fica a mesma avaliação dada, com respeito e noção da vasta diferença de gêneros existente, ao filme de FullMetal Alchemist: Brotherhood: mais divertido do que bom, válido mais como experiência e diversão em algum dia chato do que outra coisa.

E bem, finalmente chega a hora de falar sobre a igualmente polêmica parte técnica desta obra do ufotable. Considerando-se que temos aqui um Original Video Animation [que claro, fracassou de forma épica nas vendas], a animação principalmente dos personagens está muito bem executada, com senso cinemático grande e traço bastante estável. Cenários no geral bem-feitos [até porque é a coisa mais fácil de se fazer atualmente em animação: cenários] e uso massivo de 3DCG completam a receita deste bolo.

O motivo do 3DCG é até fácil de se entender [afinal, fazer aquilo tudo utilizando-se animação tradicional dá uma trabalho inimaginável], mas é duro ter que aguentar diversos trechos nos quais aparecem literalmente centenas de peixes mutantes modelados com pouquíssimos polígonos: o resultado é tosco é fácil de perceber mesmo para o mais desatento dos espectadores.

Já a animação tradicional é outra área pantanosa: em movimento que lembra o algo recente anime do estúdio SHAFT Soredemo Machi wa Mawatteiru, no qual foi utilizada a mesma técnica que facilita e muito a competente animação presente na obra, em troca de qualquer fidelidade com o estilo do original. Temos aqui a clássica troca feita para permitir que quarenta animadores mexam no projeto e este ainda mantenha um traço consistente e bem-feito; mas para alguns o preço pode ser alto demais…

A música? Plenamente esquecível.

Quer uma segunda opinião? Pode conferi-la no Elfen Lied Brasil ou no Gyabbo!.

7 Comentários

Arquivado em Reviews

7 Respostas para “Fode Sim, Gyo

  1. Saudações

    Este é o terceiro post que leio sobre o OVA de Gyo.

    Com a exceção de alguns pontos, devo dizer que esta análise foi a que mais se aproximou da minha opinião final sobre este OVA.
    E sim, quem leu o mangá provavelmente haverá de sentir a falta de muita coisa nesta animação. Quem não leu o mangá deverá gostar desta forma de representar a obra Gyo, ao menos, em tese.

    E um ponto que devo concordar massivamente: a música deste OVA é facilmente esquecível, sem muito esforço para tanto.

    E uma pequena palinha opinativa final: é impressão minha ou a última imagem deste post dá o seu veredicto final sobrea a nimação, jovem Qwerty?

    Até mais!

  2. “E aí que os fãs do original e de Junji Ito devem estar bravos” pior que você tem razão quando eu vi o OVA eu senti um vazio nela, o OVA vai ser muito bom pra aqueles que ainda não vem tanto o gênero de terror e horror, mas pra aqueles que já conhecem o manga e gostam do gênero de terror/horror o Ova não acaba ficando uma coisa muito “apetitosa”.
    Eu gostei mais ou menos do OVA pelo pequeno fato de esperar uma adaptação a altura do Junji e também por já ter uma noção desse mundo do horror trash japonês, mas tirando isso Gyo acaba virando um ótimo entretenimento

  3. Olha, tenho a impressão que é um sentimento geral, que a artificialidade da parte da técnica + roteiro raso, torna Gyo uma experiencia questionável até mesmo para o expectador comum. É o que eu tenho lido por ai, até mesmo de gente que não conhece o original. É trash. Trash é legal. Mas em um anime, até um trash tem que ter um pouco mais de esmero pra não soar muito mentiroso.

    O roteiro pra mim é ok. Apesar de achar uma fail enorme por parte deles, terem alterado e repudiado a essência do original (Gyo é tão bem articulado e tinha um potencial altíssimo pra vender), não recrimino esse OVA por isso. Afinal, se for um pipicão que diverte, beleza. Mas ao menos para mim, não é o caso aqui. Enfim, se essa foi a chance dele se testar, meu amigo, me desculpe mas ele foi reprovado com dignidade. Os superiores dele e futuros contratantes, que não deem folga pra ele soltar as asinhas, pois o talento criativo é ZERO.

  4. Pss

    É exatamente o tipo de coisa que me é intragável. Não só tem um roteiro raso como um caminho pessimista em direção ao apocalipse, com a intenção de criar pessoas completamente odiaveis, estimulando um pensamento de merecimento de morte e dando ao espectador uma sensação de poder de julgamento (que leva a pensamentos como os do Raito, são plenamente ruins, merecem morrer porque nada de bom trazem em sua existência).

    Se já me senti mal com o final de Shiki e sua crítica ao verdadeiro humanismo, imagina um troço desses. Além do horror traz a raiva de um esteriótipo que impossibilita qualquer ambivalência. Essa ansiedade por criar seres bons e mals, plenamente, me dá vontade de desistir da sociedade. Sério.

    • Levando desenhos chineses a sério…

      Fico irritado quando uma obra leva isso a sério [talvez seja meu grande problema com Elfen Lied], mas nesse caso o objetivo é simplesmente diversão e sadismo; deve ser exatamente por isso que acho Gyo sim uma obra muito da válida.

  5. Pingback: Fate/zero 18: Memórias Distantes | Nahel Argama

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